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“Eu renasci ao enraizar minha mulheridade”: relatos de uma pesquisa artística feminista

Por Thaís Nascimento

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“Eu era uma mulher que precisava de sorte”, afirmava Rosinha de Valença nos anos 1970, no Rio de Janeiro. “Muita vontade e pouca ajuda”, disse Pauliane Amaral sobre a vida de sua irmã – a violonista Mayara Amaral, assassinada por feminicídio em 2017 no Mato Grosso do Sul.

Rosinha e Mayara – duas mulheres violonistas criadoras brasileiras dedicadas ao trabalho artístico. E como trabalharam. Rosinha produziu discos, solou e acompanhou ao violão; compôs, cantou, publicou métodos, formou um grupo de mulheres, apresentou programas de rádio, realizou performances em diversos países e na televisão (Oliveira, 2025).

Por sua vez, Mayara cursou graduação e mestrado em Música e performava um repertório abrangente para violão solo, do período renascentista à atualidade. Publicou pesquisa pioneira sobre compositoras para o instrumento, dava aula com o violão nas costas, de bicicleta, em diversos bairros de Campo Grande; formou também um grupo de mulheres e diversas formações instrumentais, gravou, tocava na noite e ia fazer doutorado na Unicamp (Amaral; Soares, 2017; Amaral, 2025). 

“Renasci ao enraizar minha mulheridade”, relata Thaís Nascimento, 31 anos, gaúcha natural de Porto Alegre, quem vos escreve. Cheguei ao doutorado pela UFRJ e respiro uma pesquisa artística que desenvolvo desde o feminicídio de Mayara. Comecei na música compondo canções de maneira autodidata, até iniciar os estudos em dois projetos sociais e ingressar no curso superior de Música na UFRGS. Voltei a compor ao renascer em minha vida pessoal e profissional, inspirada pela temática de Música e Gênero.

Dessa forma, citando falas e trabalhos de mulheres violonistas que inspiram e perpassam minha pesquisa artística feminista, inicio o presente texto, que surgiu com a ideia de relatar meu concerto na Mostra Fred Schneiter, realizada em 2025, no Rio de Janeiro. Nesse concerto, o programa foi um dos elementos que não surgiram aleatoriamente, nem a partir de um cânone musical já consagrado. Por isso, trato aqui da gênese dessa performance e desse projeto artístico-investigativo como um todo. Afinal, comecei a performar obras de mulheres e a compor as minhas próprias, não por fazerem parte de um currículo ou de uma prática social aceita e difundida, mas por reagir a uma estrutura patriarcal que nega e silencia nossas produções e vidas.

Este (não) é um texto sobre a violência contra mulheres. Trata-se de como as relações entre os gêneros humanos influem nas práticas criativas de mulheres violonistas. Qual de nós nunca passou por nenhuma violência, tanto na vida pessoal quanto na profissional (se for possível separá-las)? Nesse sentido, trajetórias de três mulheres violonistas criadoras – Rosinha, Mayara e a minha, Thaís – se entrecruzam, não só por tocarem o mesmo instrumento ou terem nascido no mesmo país, mas também pelas identidades de gênero. Ao longo do texto, outras trajetórias se cruzam, como a de Elodie Bouny, que me fez chegar à notícia do assassinato de Mayara e à representatividade de me (re)ver como mulher violonista e compositora. Foi necessário me ver e rever também como artista criadora, já que a minha prática com a composição e a performance, intrínseca quando a música adentrou minha vida, foi silenciada e desqualificada pela violência de gênero que estruturou o meu lugar de intérprete e de mulher dócil nas minhas relações profissionais e pessoais.

Minha primeira lembrança da infância, retomada apenas nos últimos anos, após essas reflexões sobre identidade, é de quando pegava um violão que ficava encostado em uma parede na casa de minha vó, na região metropolitana de Porto Alegre, Rio Grande do Sul. Quando já tinha 10 ou 11 anos, fiz um violão de sucata e compunha letras de música. Aos 12 anos, ganhei meu primeiro violão acústico, série Estudo, de loja. Corria o ano de 2006. Também aos 12 anos, mas algumas décadas antes, em 1953, Maria Rosa Canellas (Rosinha de Valença) já tocava em bailes de Valença, no Rio de Janeiro (Marcondes, 1977). Mas como e quando ambas as violonistas chegaram à capital fluminense?

As sonoridades — sejam notas musicais, timbres, gestos violonísticos ou falas — são narrativas quando realizo performances com o meu violão. Não só no momento dos concertos, recitais e saraus, isto é, quando estou com as pessoas que gentilmente se deslocam para me ouvir e/ou apreciar o violão. Mas cada uma das etapas — escolhas criativas, estudos, composições — em minha casa, com meu instrumento e por onde estou, constitui uma das narrativas da minha vida, de outras pessoas e das mulheres violonistas criadoras com quem venho trabalhando (com elas e com suas obras). Esse tema transformou minha prática artística. Me faz e me fez ter mais vontade de viver, de produzir e de difundir minhas pesquisas artísticas, em contato com musicistas, pesquisadoras(es) e com o público em geral.

Dessa forma, a cada interação artística, trago narrativas como a de Rosinha, na performance do vídeo Porto das Flores – Rosinha de Valença, Performance de Thaís Nascimento. A violonista chega aos 22 anos ao Rio de Janeiro em busca de emprego como datilógrafa, mas passa a viver do violão. Ao acessar as gravações de vídeo e áudio de Rosinha hoje, parece que ficam ocultas as dificuldades que teve, tendo sido, afinal, uma mulher violonista com uma atividade profissional tão abrangente e intensa. Vemos, por outro lado, a escassez de material disponível sobre sua produção, bem como de menções ao seu violão como integrante da prática criativa brasileira do instrumento. Considerando também seu falecimento precoce (parada cardíaca aos 50 anos de idade, seguida de 12 anos em coma), nos deparamos com mais uma prática de silenciamento da produção de mulheres. A frase inicial deste texto, “Eu era uma mulher que precisava de sorte”, inicia uma fala de Rosinha na qual ela diz que

“era a única contra um número enorme de violonistas, um bando de homens que não estava a fim de me ceder um lugar. Precisava quase arrancar as cordas do violão para que as pessoas compreendessem que eu sabia tocar. Quantas vezes fazia acordes fortíssimos para acordar as pessoas, para que calassem um pouco a boca e prestassem atenção: quando um artista toca, ele tem que ser ouvido. Não importa que esteja de saia ou de cuecas.” (Jornal do Brasil, 1972 apud Baraúna, 2014).

Na segunda noite da Mostra Fred Schneiter, no dia 25 de julho de 2025, havia uma artista de saia. Eu, a única mulher violonista a tocar naquela noite, pensava em como trazer para o palco as narrativas de outras mulheres. Estar ali já representava isso, mas também estava porque minhas antecessoras abriram alas e seguem abrindo (sim, sempre falo de Chiquinha Gonzaga como nossa ancestral). Nos outros dias da Mostra, percebi que havia um projetor na sala de concerto, acima e atrás de quem está tocando. Portanto, tive a ideia de não só falar de compositoras e violonistas ao longo de meu concerto, mas também projetar a imagem delas.

Escolhi o número de 100 violonistas de diversos países, priorizando as brasileiras e demais latino-americanas, a partir de uma perspectiva decolonial e de aproximação cultural. O número se deu por um limite de tempo do concerto e pela necessidade de articulação entre a produção do vídeo e a preparação para a prática instrumental. Antes do concerto, conversei com a equipe de som e luz e combinei de pausarem o vídeo a cada vez que eu terminasse uma música. Então, além de falar sobre a peça musical apresentada, discorria sobre a violonista do vídeo.

Não programei isso, mas todas as que pararam no momento combinado eu as conhecia bem, seja pessoalmente ou por colaborações de trabalho. Após a performance de Porto das Flores, de Rosinha, no primeiro vídeo deste texto, a projeção parou na imagem de Luciana Oyhanarte, violonista compositora argentina, integrante do coletivo AIVIC – Associação Internacional de Violonistas Compositoras. Na ocasião, outra integrante fundadora e diretora, além de mim, estava presente: Ximena Matamoros.

Desde 2017, quando iniciei esta pesquisa artística feminista movida pelo senso de justiça (isto é, senso de valorização da própria vida) e para homenagear Mayara, tenho trabalhado cada vez mais, levantando repertórios de mulheres para violão, realizando colaborações artístico-acadêmicas sobre a temática e, com elas, construindo performances e composições, pensando e praticando epistemologias de comunicação respeitosa em todos os meus trabalhos. Ou seja, não se trata somente do conteúdo musical (obras de mulheres), mas de como ser e estar no mundo com as pessoas de maneira não-violenta.

Isso não ocorreu de um dia para o outro. Eu tinha 23 anos e não tinha vivido apenas uma única situação de violência pessoal e profissional. Para citar uma situação, tinha parado de compor por não me ver nesse lugar. Mas a contradição é que, quando comecei a me interessar por música na infância, antes de ter um violão e acesso à educação musical, eu passava boa parte do tempo compondo. Continuei a compor quando ganhei o meu violão Giannini série de estudo, agora acrescentando acordes e gestos violonísticos. Mas parei de compor e de reconhecer minhas potencialidades como tais ao entrar na universidade e cumprir um currículo de interpretação de obras de homens compositores.
Isso não ocorreu de um dia para o outro. Eu tinha 23 anos e não tinha vivido apenas uma única situação de violência pessoal e profissional. Para citar uma situação, tinha parado de compor por não me ver nesse lugar. Mas a contradição é que, quando comecei a me interessar por música na infância, antes de ter um violão e acesso à educação musical, eu passava boa parte do tempo compondo. Mas parei de compor e de reconhecer minhas potencialidades como tais ao entrar na universidade e cumprir um currículo de interpretação de obras de homens compositores.

É um conjunto de vivências, mas a dissertação de Mayara Amaral, defendida em março de 2017 na Universidade Federal de Goiás, foi minha primeira referência para incorporar obras de compositoras no meu violão. Adentrei nessa narrativa e a descobri coletiva, entrecruzada com as histórias de outras mulheres. Passei a me dedicar mais à minha carreira de artista pesquisadora, realizando performances e publicações acadêmicas. Ao ouvir e contar a minha história, estava fazendo por muitas que não puderam e/ou ainda não se veem. Venho difundindo incansavelmente o meu trabalho, o que me trouxe também ao Rio de Janeiro, onde curso o Doutorado em Processos Criativos no Programa de Pós-Graduação em Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro, além de realizar e participar de eventos. A Mostra Fred Schneiter marcou muito meu ano de 2025, bem como minha trajetória. Ser, à tarde, parte do júri do concurso organizado pelo evento e, à noite, concertista mulher apresentando obras de mulheres, me fez sentir iluminada não só pelo sol do dia, mas principalmente por outro elemento vital, da noite.

O que esperamos ao olhar para o céu ao entardecer, no meio da noite ou da madrugada? Que “Deve ter lua”… título da peça de Fred Schneiter que performei na Mostra dedicada a ele no Rio de Janeiro, em 25 de julho de 2025. Data simbólica em muitos sentidos. Por volta da segunda metade de julho, anualmente, ocorre o evento em homenagem ao seu legado. Fred foi um violonista e compositor de intensa atuação, destacando-se com o Duo Barbieri-Schneiter, formado por Luís Carlos e Fred. Infelizmente, nos deixou muito jovem, aos 41 anos, em 2001. 16 anos depois, exatamente no dia 25 de julho, só que de 2017, Mayara teria sua vida interrompida pelo feminicídio. Nesse dia, também é o dia internacional da mulher negra latino-americana e caribenha.

Alguns dias antes do meu concerto, assisti ao filme Ritas, um documentário narrado pela própria Rita Lee. A compositora, cantora e multiinstrumentista, que nos deixou há dois anos, marcou minha admiração por sua inspiradora atuação e por uma fala que tomou meu coração de emoção e esperança. Direi-a com minhas palavras: quando era mais jovem, Rita pintava seu cabelo de vermelho pela energia do Fogo que guiava sua caminhada no momento; anos depois, seu cabelo foi embranquecendo, ficando com a energia da Lua e de acordo com a sua presente caminhada nesse segundo momento, realizando um sonho de envelhecer – assim sendo, de viver. Narrei essa história na performance de Deve Ter Lua, de Fred Schneiter, desejando uma velhice realizada a todas e todos e dedicando meu concerto ao Fred, à Mayara e à Rita Lee (a quem Fred admirava muito também).

Superação, resiliência, alegria, muito estudo, preparo, criações, curas, caminhadas, da sucata à madeira, de cordas de borracha a cordas de nylon, letras, partituras, trajetórias, luta pela igualdade de gênero, amizades, família, cultura indígena, vidas, mortes, renascimentos… Algumas das experiências representadas em palavras que significam minha participação na Mostra. Não somente ao escrever sobre minha vivência durante o período do evento, mas também sobre um evento, uma temática de pesquisa, um acontecimento ou uma criação, não tem como não falar de nossa trajetória como um todo. Nossas caminhadas se expressam nas trocas interpessoais.

Essa foi a XXI Mostra e XII Concurso Nacional de Violão Fred Schneiter. O evento conta anualmente com concertos e, bienalmente, com um concurso para violonistas de até 30 anos de idade. Comecei a participar em 2023 como jurada, a convite do organizador Luis Carlos Barbieri. E, neste ano, em 2025, além de jurada, participei como concertista. Há diversas possibilidades de reflexões musicais sobre minha participação nesta edição. Uma mulher violonista apresentando obras de mulheres compositoras. Uma das epistemologias feministas para investigar e compreender essa questão é justamente narrar o meu processo criativo. Uma narrativa na perspectiva autoetnográfica e feminista já permite situar minha prática artística em um contexto musical mais amplo, pois faço parte de um compartilhamento constante e já existente de referências. Um evento como esse é essencial para difundir a música para violão, mantendo ativo o contato das pessoas com o instrumento. 

Abri o meu concerto com a peça Porto das Flores, de Rosinha de Valença, conforme apresentei no início do texto, falando sobre sua chegada ao Rio de Janeiro. Publiquei um artigo no Congresso da ANPPOM sobre minha pesquisa artística feminista com a transcrição da obra (Oliveira, 2025), disponível em partitura e tablatura nos Anais do evento. Antes de apresentar Deve ter Lua do Fred, segui o concerto com uma obra de outra violonista que morou no Rio de Janeiro, nascida na Venezuela e crescida na França. Elodie Bouny defendeu seu mestrado pela UFRJ e estava cursando o Doutorado quando a conheci em Porto Alegre/RS. Em seu concerto, apresentou suas composições, como as Cenas Brasileiras. Foi a primeira violonista que vi pessoalmente performar obras de sua própria autoria. Foi através de Elodie que pude me rever como violonista criadora e, em contato com ela pelas redes sociais, fiquei sabendo do feminicídio de Mayara através de um compartilhamento da notícia.

O contato interativo pelas redes sociais, em minha trajetória, ampliou minha pesquisa artística feminista. Pude entrar em contato com diversas compositoras, pesquisadoras(es), obras e processos criativos. Essa temática de pesquisa sobre música e gênero no violão, além de me fazer buscar mais pontes e contatos, me inspirou a difundir ainda mais o meu trabalho, por me ver como violonista criadora que também tem a contribuir na cultura musical e pelos direitos das mulheres. Essa difusão intensa gerou frutos – dentre amizades, trabalhos, conhecimentos, lancei o disco Expressivas – Mulheres Compositoras para Violão (2021) por meio de campanha de financiamento coletivo e formação de grupos, como a AIVIC. No primeiro ano da pandemia de Covid-19, após acessar esse trabalho, Ximena entrou em contato comigo. Juntas, temos trabalhado pelo coletivo e pela divulgação de nossas obras. Na mostra, tive a felicidade de performar, em sua presença, a sua peça Océano (blues), gravada pela compositora no disco Ecos Latinoamericanos (2018). Compartilho o vídeo da gravação que fiz para o I Festival AIVIC, em 2022, convidando vocês a conhecerem as demais dezenas de performances de obras de compositoras apresentadas em 5 concertos, todos disponíveis no Canal de Youtube relacionado ao link.

Ao construir performances de obras de mulheres compositoras para violão, passei a me sentir representada. Eu renasci ao enraizar minha mulheridade. Passei a ressignificar a performance como uma elaboração criativa – uma atividade que não é apenas ler e executar música e peças com uma tradição interpretativa já consolidada. Mas, buscar compreender o sentido de cada uma, desde as identidades de gênero e culturais, a cada escolha estética construída coletivamente e interpessoalmente. As escolhas estéticas, composicionais, estruturais, técnicas, narrativas, formas de difusão da música (se por gravação, edição, manuscrito ou oral), como que o repertório chega (ou não chega) e a relação das pessoas com as obras, performers, compositores, entre outros aspectos – cada um desses e outros elementos são constituintes da prática criativa que é compor obras e fazê-las chegar às pessoas através da performance.

Por exemplo, Mayara fez chegar em mim obras de mulheres compositoras brasileiras e Elodie, obras de sua autoria. Escutei e vi ao vivo a Elodie; depois, obtive acesso a gravações e partituras, bem como a interações colaborativas com a compositora quando gravei suas peças. Em relação ao trabalho de Mayara, obtive acesso pela pesquisa escrita e as partituras. Estar em contato com essa produção, me faz pertencente à prática criativa da performance e composição para violão, visto que muitas mulheres também o fizeram e batalharam para que suas obras e pesquisas (e vidas) sobrevivessem.

Assim sendo, me reconheci como uma violonista criadora brasileira, que iniciou na música criando letras, sons, acordes e o próprio instrumento. Voltei a compor para violão e, nessa edição da Mostra, performei minha peça Menina (choro gaúcho), que fiz no ano de 2020 como resposta a uma violência de gênero. Dentre outros ocorridos, fui chamada de “menina” na tentativa de desqualificar o meu trabalho. Naquele dia, refleti sobre o significado de ser menina e o porquê utilizamos socialmente esse termo para diminuir uma pessoa (mulheres e homens). Como se ser menina, fosse equivalente a ser frágil, imatura, pequena, submissa, incompetente, inexperiente e/ou condissesse a uma orientação sexual não padrão. Uma diminuição da identidade de gênero mulher que, por si só, já é diminuída e violentada. Imagina uma menina.

O que é ser menina? Lidar com a dualidade de uma sociedade que, ao mesmo tempo em que nos fragiliza e violenta, nos obriga a sermos fortes sem uma estrutura para isso. Temos que enfrentar a violência, nos proteger e ainda cuidar dos outros(as), gerar filhos, lidar com padrões de feminilidade, maternidade, os limites de ir e vir, trabalhar o dobro para obter reconhecimento e, mesmo assim, sermos silenciadas na vida pessoal e profissional. Pensei em como representar isso em uma peça para violão solo. Utilizei duas estratégias:

  1. uma delas foi uma concepção geral – como ser menina é enfrentar muitas coisas difíceis, diferentes, procurei  agregar uma diversidade de técnicas e gestos violonísticos, dentre dedilhados, rasgueados, escalas, arpejos, glissandos, tremolos, harmônicos, diferentes dinâmicas, andamentos e agógicas, dissonâncias e consonâncias, acordes que intercalam sons em cordas presas e soltas e a utilização de uma vasta tessitura de alturas, da corda mais grave do violão a um dos harmônicos mais agudos da primeira corda. Essa variedade grande de gestos, junto com o desenvolvimento harmônico, rítmico, melódico, formal (peça com introdução, três seções e uma coda) e andamento rápido, tornou a peça complexa para construir performance, como é a complexidade de ser uma menina na sociedade.
  2. A segunda estratégia condiz com uma epistemologia que procurei seguir ao longo do processo criativo – a epistemologia feminista. Ao mesmo tempo em que pensei nos gestos musicais e violonísticos enquanto concepção, citados na estratégia anterior, procurei vivenciar uma epistemologia de me colocar no centro do processo criativo, realizando uma pesquisa artística feminista com base nas autoras criadoras Isabel Nogueira e Linda O Keeffe (2018). Essa vivência consistiu em ouvir a minha voz interior não só pensando na concepção da peça, mas realizando os gestos sonoros ao violão sem pré-julgamentos, limitações formais ou de combinação de sons. Ou seja, ia compondo junto com a experimentação e expressão livre que fazia no instrumento enquanto me lembrava da situação de violência e, ao mesmo tempo, queria transformar essa realidade contando essa história através de minha prática criativa. Junto com a dor, a esperança. Junto com a tentativa de desqualificação do meu trabalho, a valorização dele, começando por mim mesma, e por me permitir compor ouvindo meus impulsos, sentimentos e estéticas na prática.

Compus a peça toda, gravei e performei diversas vezes em lives (durante a pandemia de Covid-19). Um ano depois, a escrevi na partitura. A composição se deu em dois dias. Poucos dias depois, estreei. Enquanto realizava a experimentação sonora da estratégia 2, também ia tomando decisões estéticas da estratégia 1. Ou seja, elas ocorreram de maneira intrínseca e não sequencial. Os diversos gestos mencionados no item 1 foram desenvolvidos tanto espontaneamente quanto pensando no significado de cada um na peça, realizando adaptações e modificações que também foram estruturando o discurso da peça. Essa composição é parte de minha pesquisa artística feminista que desenvolvo no meu curso de doutorado através de autoetnografia. Analiso minha prática criativa e a de outras mulheres violonistas como parte de um contexto musical e cultural.

Por exemplo, contei a história da origem de minha peça Menina antes de tocá-la na Mostra, demonstrando como as vivências de identidade sobressaem na prática criativa. 

Outra composição que performei foi a Violera na Bananera. O título, divertido e cheio de licenças poéticas, conta minha história na Capoeira. Violera é o nome com que meu professor me batizou. Bananeira é um movimento corporal que inverte as pernas pelos braços. A composição conta a história de eu tentando subir na bananeira, porém não subia até o final. Essa é uma das razões pelas quais a peça não termina na tônica, mas sim na sétima maior do acorde. Compus essa peça também experimentando ao violão, mas escrevendo ao mesmo tempo para organizar visualmente as subidas e descidas das escalas que representam os gestos da bananeira. A composição surgiu com melodia e cifra acima, não sendo original para violão solo. Pode ser tocada por qualquer formação instrumental. Foi estreada em Porto Alegre, em 2019, com violão, flauta, fagote e viola de arco (link).

Na Mostra, a peça foi o bis, na versão para duo de violões. Convidei o organizador, Luis Carlos Barbieri, que considero um excelente violonista, com gratidão pelo convite para o evento. Ademais, realizar duos e outras performances coletivas com mulheres e homens de obras de compositoras tem sido uma prática feminista de difusão da produção de mulheres através de vivências colaborativas.

Minha participação solo na Mostra encerrou-se com a performance das obras Gaúcho e Ó Abre Alas, de Chiquinha Gonzaga. A primeira “nasceu nos palcos dos teatros musicados, onde foi dançada na cena final da opereta burlesca de costumes nacionais Zizinha Maxixe”, em 1895 (Diniz, 2011). Em 1914, foi performada no Palácio do Catete pela cartunista, pintora, cantora, atriz e pianista Nair de Teffé. O nascimento de Ó Abre Alas foi também o nascimento da marchinha carnavalesca, em 1899, no carnaval carioca. Eu sempre digo que Chiquinha é nossa ancestral brasileira por tudo o que ela foi, fez, representou, transformou e sobreviveu. E sempre falo quando performo esse arranjo que compus entre os anos de 2017 e 2018, inspirada pelos tempos em que iniciei minha pesquisa artística feminista, na temática das relações de gênero e violão, sobre as quais escrevi neste texto. Assim, Partimus para a performance de Chiquinha e espero que possa ser uma partida para um olhar mais igualitário e respeitoso na Composição e na Performance.

Referências

Amaral, Mayara. 2017. A mulher compositora e o violão na década de 1970: vertentes analíticas e contextualização histórico-estilística. Dissertação (Mestrado em Música). Escola de Música e Artes Cênicas (Emac), Goiânia: Universidade Federal de Goiás.

Amaral, Pauliane; Soares, Alessandro. Mayara Amaral. Acervo Digital do Violão Brasileiro: São Paulo, 2017. Disponível em: <https://www.violaobrasileiro.com.br/dicionario/mayara-amaral>. Acesso em 10.11.2025.  

Amaral, Pauliane. Entrevista a [Thaís Nascimento Oliveira]. Google Meet, 05 de novembro de 2025. Não publicada.

Baraúna, Mara. Uma homenagem a Rosinha de Valença. São Paulo: GNN – Grupo Gente Nova, 2014. Disponível em: <https://jornalggn.com.br/musica/uma-homenagem-a-rosinha-devalenca/>. Acesso em: 29 jan. 2024.

Diniz, Edinha. GAÚCHO, O Corta Jaca da revista de costumes e fatos nacionais e estrangeiros CÁ E LÁ. Página da Internet. Disponível em: <https://chiquinhagonzaga.com/acervo/?musica=gaucho&post_id=1463>. Acesso em 15.12.2025. 

Matamoros, Ximena. 2018. Ecos Latinoamericanos. Compact Disc. Santiago: Universidad de Chile.

Marcondes, Marcos Antônio. 1977. Enciclopédia da música brasileira: erudita, folclórica e popular. São Paulo: Art Editora.

O Keeffe, Linda; Nogueira, Isabel. 2018. Applying Feminist Methodologies in the Sonic Arts: The Soundwalking as a Process. XXVIII Congresso Da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Música. Anais… Manaus: Universidade Federal do Amazonas.

Oliveira, Thaís Nascimento. 2025. A performance e transcrição musical como pesquisa artística e feminista: um processo criativo com Porto das Flores de Rosinha de Valença para violão. XXXV Congresso da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Música. Anais… Campo Grande: Universidade Federal do Mato Grosso do Sul.

Oliveira, Thaís Nascimento. 2021. Expressivas – Mulheres Compositoras Para Violão. Compact Disc. Intérprete: Thaís Nascimento. Compositoras: Cintia Ferrero, Elodie Bouny, Barbara Kolb, Andrea Perrone, Lina Pires de Campos, Lúcia Teixeira e Chiquinha Gonzaga. Porto Alegre: Produção independente.

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